Por Marilaina Andrade

Fazer o bem e compartilhá-lo é multiplicar as luzes numa sociedade tão cheia de sombras, é abrir janelas em meio a muralhas de pedras, é tornar visível o que o amor opera num coração que se abre à vida. Somos mais felizes se fazemos o bem e menos se deixamos de fazê-lo.
Algumas vezes, podemos achar que, para realizar o bem, precisamos de grandes coisas ou grandes cifras, de eventos ou campanhas… Quando surgem oportunidades, certamente. Porém, a vida não é feita somente de grandes eventos, mas sim de pequenas coisas do dia a dia: uma palavra bem dita ou evitada, um simples sorriso, uma escuta sincera, o respeito ao modo de ser do outro.
Fazer o bem exige atitude! Requer viver a Regra de Ouro que diz “fazer ao outro o que gostaria que fosse feito a mim” e assim concretizar a mudança que quero ver no mundo.

Gostaria de um mundo justo? Preciso viver a justiça a partir do pouco ou do muito que tenho ou faço.
Não gosto da corrupção? Então, vivo na verdade e na transparência minhas ações e decisões.
Quero igualdade? Preciso não me sentir superior nem inferior diante das pessoas com quem convivo.
Gosto da palavra Fraternidade? Algo tão difícil, mas possível de ser verdadeiramente vivido quando vejo o outro como irmão!
Se somos “irmãos”, possuímos a mesma dignidade de pessoa humana. O irmão é outro eu, uma extensão de mim. Acredito que todos estamos interligados e dependemos uns dos outros para sermos verdadeiramente felizes e realizados. É como disse Mahatma Gandhi: “eu e tu somos um só; não posso te maltratar sem me ferir”.
Quando compartilhamos o bem que há em nós, contribuímos para a construção do bem no outro. Foi o que vivi ao acolher os refugiados indígenas, imigrantes venezuelanos, em Castanhal, quando se aproximava o Natal de 2018. Esses irmãos não precisavam apenas de comida, roupa e abrigo, mas sim, de se sentirem “pessoas”, portanto, com direitos e deveres. Os venezuelanos refugiados encontravam-se num estado de grande vulnerabilidade e precisavam, antes de tudo, de ser amados e não julgados. Foi uma experiência marcante: não me envergonho por entrar com eles em repartições públicas e ser a sua voz (pois não falavam o português); respeitar e conviver com sua cultura e seus costumes totalmente diferentes dos nossos. Quanto me ensinaram esses irmãos, campeões em superação, união e esperança! Infelizmente ainda vivemos numa sociedade que vê só as aparências ou que vive delas; que não consegue ultrapassar um limite criado e não faz sua uma causa que é questão de sobrevivência para o outro; que é capaz de retirar de seu armário um alimento, ou até mesmo de seu bolso uma quantia, apenas para se livrar daquele que necessita, aliviando assim sua consciência.
O ser humano precisa sim de coisas materiais; mas, na maioria das vezes, a sua maior fome é de encontrar um olhar que encontre os seus olhos, uma boca emitindo a ele um sorriso sincero, ouvidos capazes e corajosos para ouvi-lo, um “coração de carne” que compartilha os seus sonhos e frustrações; mãos estendidas que o elevam lado a lado, não acima, nem abaixo. Enfim, somos matéria e espírito, e maior que a miséria da simples matéria, é a falta do espírito de fraternidade, de solidariedade e de amor ao próximo!
Fazer o bem ao irmão é muito bom, mas fazê-lo junto com outras pessoas é melhor ainda! Com um grupo de amigos, experimentamos, juntos aos irmãos refugiados, a alegria de regularizar seus documentos, de fazer consultas médicas e odontológicas, de encontrarmos profissionais solidários e sensíveis à situação cruel em que se encontravam. Vivemos com os venezuelanos e com as famílias que trabalham no “lixão” da cidade o verdadeiro sentido do Natal!
Como é valido começar a fazer algo pelo semelhante… A minha felicidade se torna maior com a felicidade do outro e desperta também mais corações de boa vontade (olha que existem muitos que ficam adormecidos!).
Precisamos não ter medo de fazer a nossa parte; pode ser pequena, mas, por vezes, é a necessária para o surgimento de obras maiores. Entendo assim, porque vejo que o amor, o bem, são contagiantes.
Santo Agostinho afirma que “sendo o homem imagem e semelhança do Criador, ele é essencialmente bom e capaz de amar”.
Quando realizamos o bem, seja no âmbito ecológico, familiar, social, etc., sentimo-nos revigorados, motivados, vivos! Quando compartilhamos o bem, não pensamos somente no que dá prazer a nós mesmos, mas alargamos o coração, estando sensíveis às necessidades e mudanças ao nosso redor. Existe também quem necessita dessa minha “respiração” e quem precisa reaprender a “respirar” para se sentir pessoa viva e capaz.
No Espetáculo da vida, alguns assistem, outros atuam em longa metragem ou em peças de curta duração; porém, para todos tem a hora do fim! E no final, percebemos que tudo é muito rápido e dinâmico; por isso, não dá pra ser só um expectador da própria vida, temos que ser os protagonistas.
Amor gera amor. É o que experimentamos quando nos dispomos a sair da nossa zona de conforto. Isso porque o amor flui como a água corrente, precisa seguir seu curso, passando por lugares inimagináveis e penetrando em terras quase sem vida. O amor não precisa de barulho, provoca mudança em quem ama e naquele que é amado, não tem idade, nem classe social, nem época, porque todo dia é novo, e nova é a oportunidade que temos pra viver!
“Irmãos, não vos canseis de fazer o bem!” (Paulo de Tarso).
Compartilhar o bem é contribuir para a redução de suicídios, que muitas vezes são provocados pela falta do amor; pois nos tornamos insensíveis à dor do outro, preconceituosos e intolerantes, sem percebermos o que está além daquilo que os olhos podem ver. Precisamos voltar a sentirmo-nos verdadeiramente humanos e amados para resgatar o sentido da vida!
O filósofo social e teórico político J.J. Rousseau afirmou: “O homem é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”. Realmente, se queremos mais pessoas de bem, precisamos construir uma sociedade nova, com homens e mulheres capazes não só de falar, mas também de ouvir e agir; gente que, independente da sua fé, deixa-se iluminar como ser criado pelo seu Criador. Concluo com o pensamento de Igino Giordani (político italiano, cofundador do Movimento dos Focolares) “salvar a família é salvar a sociedade”. Acredito que, para criar uma sociedade nova, é preciso valorizar, cuidar e acreditar na Família, obra perfeita do Criador! É da família que vem todo o bem que podemos realizar no mundo.