Por Waddle Nascimento

Compartilhar o bem é, sem dúvida nenhuma para mim, cuidar do meio ambiente, seja por meio de ações diretas e concretas, seja contribuindo na construção da consciência ambiental do próximo, transformando-o em um espaço belo de relações, onde passe a existir mais fortemente a presença de cidadãos reflexivos e conscientes de seus atos quanto ao meio ambiente.
Quando reflito sobre fazer o bem, cuidando do meio ambiente, trago à tona uma memória afetiva da minha infância. Era criança, creio que tinha entre 8 a 10 anos, e sentado no banco da capelinha de São Francisco de Assis, meio sem entender o que fazia ali, a frase “Irmão Sol e Irmã Lua” surge em alguma homilia, e me fez pensar que tudo que está ao meu redor é meu “irmão”, que tudo que está ao meu redor é obra da criação, que tudo o que está ao meu redor está interligado a mim, e eu interligado a esse tudo, e que tudo é reflexo da minha ação, ou seja, se faço o bem, o meio ambiente me devolve o bem, se causo a destruição, recebo as consequências desta no meio ambiente. Essa reflexão foi e é até hoje de suma importância para a minha escolha de carreira e de vida. Foi aí, nesse exato momento que escolhi ser professor.
E, no caminhar da vida, tudo foi sendo levado a essa minha formação profissional, não para uma carreira de professor de matérias de base, mas para atuar como educador ambiental, buscando levar, como diz Leff (2001), uma mudança radical nos sistemas de conhecimento, dos valores e dos comportamentos das pessoas, fazendo-os ver no meio ambiente uma grande casa, que precisa de cuidado e atenção.
Uma experiência marcante que carrego da graduação foi o ano de 2011, onde atuei no projeto “Água em casa, limpa e saudável”, projeto este que levava água para as populações ribeirinhas de três ilhas de Belém. Foi tocante ver vidas humanas que, mesmo morando ao redor de milhares de litros de água, não tinham água de qualidade para consumir. A partir de então, me fiz compreender ainda mais que compartilhar o bem cuidando do meio ambiente, não seria através de grandes mudanças no mundo, mas seria por meio de mudanças em mim, levando-as ao meu redor, sendo a transformação local que quero para o meio ambiente.
Acreditar que posso compartilhar o bem, cuidando do meio ambiente, é acreditar que tudo está interligado, é acreditar que formamos uma grande teia onde cada espírito, cada ser, cada animal, cada vegetal, cada mineral, cada humano, estão em constante movimento vibratório, numa rede de reciprocidade, dependendo um do outro.
Nesta combinação do desejo de ser professor, mais o de transformar aqueles que passam ao meu redor, vi o surgimento do educador ambiental que existe em mim. Entre palestras, cursos, oficinas, mesas redondas, ações e debates, acredito que já contribuí na formação de mais de mil pessoas, desde crianças até idosos, no Brasil e fora dele.
Atualmente sou professor do ensino técnico e tecnológico da rede estadual de ensino, atuo na formação de futuros técnicos em meio ambiente. Neste desafio de formar novos profissionais, fica bem forte o desejo de, não apenas transmitir a eles o conhecimento específico da área, mas, como diz Freire (2011), aprendendo ao ensinar e ensinando ao aprender, transformando-os em profissionais críticos e reflexivos, que sua atuação no meio ambiente é rica, transformadora e leva o bem a si mesmo e a quem está ao redor.
E nesse processo de compartilhar o bem, cuidando do meio ambiente e formando novos profissionais, na escola onde atuo, já desenvolvemos o projeto de um ecoponto para recolher resíduos perigosos, como pilhas e baterias, transformamos ambientes abandonados em belos espaços de convivência e estamos construindo o projeto de uma horta comunitária para a comunidade ao redor da escola.
Mediante tudo isto, acredito que compartilhar o bem, cuidando do meio ambiente, é saber que “a terra e os elementos têm capacidade para curar-se. Quem sabe isso não ocorra durante a nossa vida, mas tudo leva o seu tempo e vai ser necessário um bom grupo de pessoas que creiam nisso” (Flordemayo – avô Maya), compreendendo que em um mundo onde estamos aprendendo por meios tristes, advindos da notória destruição do planeta, podemos e devemos aprender não somente a reciclar toda a parte material, mas também, alegremente, assumirmos a tarefa de reciclarmos a nós mesmos, nos desfazendo destes padrões que a linhagem humana vem repetindo, dos pensamentos e ações tóxicas para nós e para todo o meio ambiente. Isso é cuidar de nós, isso é cuidar do nosso planeta, isso é compartilhar o bem!