Por Rafisa Souza

Fiquei pensando em uma forma eficaz de escrever esse texto , tentando desenvolver um enredo atrativo, que te instigasse a continuar a leitura, buscando uma narrativa interessante, que fizesse valer a pena cada minuto investido aqui. Pensei nos elementos de uma boa redação e também fui tentada a fazer desse espaço uma coletânea com algumas das histórias mais incríveis que vivi. Mas nada disso fazia muito sentido, diante de uma perturbadora questão que me ocorria: “Seria o BEM apenas uma boa teoria?” “Seriam nossos esforços, apenas tentativas de maquiar a realidade e minimizar nossa culpa, diante do aparente domínio do mal?”Eu precisava de mais do que experiência, pra fazer com que esse espaço realmente fosse relevante. Na verdade, eu precisava crer que aí do outro lado haveria pessoas igualmente comprometidas a fazer de suas vidas, algo maior do que simplesmente acumular coisas ou poder; pessoas dispostas a ver além. Assim, na tentativa de gerar entre nós um diálogo, ainda que imaginário e silencioso, quero te convidar a investir uns minutinhos, num esforço simples de trazer à memória alguns momentos em que a tua alegria (ou tristeza) não estava exclusivamente ligada a ti; momentos em que diversão, roupas e comida, não foram suficientes pra diminuir tua dor; Momentos em que você sofreu ou viu alguém sofrer no trabalho, por causa da maldade de alguém… Imagino que na sua trajetória profissional, por exemplo, assim como na minha, há algum mísero sinal da crueldade humana. Porque sei que a coisa mais difícil na vida profissional são pessoas. Aliás, a coisa mais difícil na vida, são pessoas. As dores mais agudas da nossa alma são causadas por pessoas, a maioria dos traumas, também. ConVIVER traz sofrimentos inevitáveis e frustrações terríveis, mas a solidão plena é a mais incabível das utopias. A gente já se forma parte, nutre-se no outro e do outro. E mesmo depois de nascer é ao outro que cabe nossa sobrevivência por vários anos; crescemos com a ilusão da independência, mas basta que uma gripe nos atinja para que desejemos desesperadamente o colo da nossa mãe/vó/pessoa querida que possa nos fazer um chá, levar comida na cama, ser aconchego… Na morte não é diferente. Um velório minimamente decente, carece dos outros. Definitivamente estamos encurralados no fato da vida em “comunidade”.Pessoas. Sempre pessoas. Penso no que vivi/vivo e lá estão elas, protagonizando cada ato. Lembro-me de cada grande angústia, e há sempre um nome associado. Mas lembro-me também das maiores alegrias e nelas também não estou sozinha. Porque, advinha: A MELHOR COISA DA VIDA TAMBÉM SÃO PESSOAS. E nessa trajetória já balzaquiana, vi muito tipo de gente: vi gente cruel, que machuca pelo simples prazer de sentir-se superior; vi gente desesperançosa matando as esperanças da gente; gente que não sabe lidar com suas ausências e por isso não consegue celebrar a alegria do outro; gente que fere porque foi ferida; gente invejosa, amarga, maliciosa… Mas vi também gente surpreendente: que guarda sua dor pra cuidar da dor do outro; que escolhe crer em meio às adversidades; que acolhe o estrangeiro, socorre o ferido, protege o fracos; que partilha a comida, a casa, a própria vida; gente que vive pra gente; gente honesta, bondosa, misericordiosa…Estou certa de que o “império da maldade” se instala em nosso meio através de pessoas. O da bondade também. E também, de que o BEM que eu tanto desejo ao mundo não pode começar por ninguém além de mim. Não existe bondade compartilhada que não seja vivida, o nome disso é hipocrisia. Não existem boas atitudes sem bom caráter, o nome disso é esmola. E isso, a gente está cansada de saber, não gera grandes transformações. Definitivamente não dá pra compartilhar o verdadeiro BEM, sem ser o próprio BEM. Outras perguntas me sufocam: Que tipo de pessoa eu realmente sou? O que tenho semeado no mundo com o meu caráter? Quanto de verdade existe nas minhas atitudes? Qual a proporção entre minhas ações e o meu discurso? Talvez seja interessante que você se faça essas perguntas também. Há quase 5 anos dedico minha vida integralmente à árdua tarefa de fazer desse mundo um lugar melhor; de viver e fazer com que as pessoas vivam de maneira um pouco mais parecida com a qual eu acredito que fomos criados para viver. Nessa curta, mas intensa trajetória de ser e compartilhar o BEM como missão de vida , tenho visto de perto seu aspecto TRANSFORMADOR. E apesar de, aparentemente, estarmos caminhando a passos largos para o caos, vejo a esperança frutificando diariamente. No ano passado, começamos um projeto com crianças e famílias no Haiti. Já em nossa primeira viagem, fomos surpreendidos com uma dura realidade: Nosso desafio é bem maior do que simplesmente lutar contra a miséria, orfandade ou analfabetismo, como ingenuamente poderia-se pensar. Nosso desafio é ajudá-los a ver e serem vistos com Outros Olhos. E isso vai muito além de suas necessidades físicas. Pra isso, é preciso muito mais do que dinheiro. É preciso crer e fazer com que aquilo que temos de melhor seja compartilhado. E multiplicado. Que sua escolha também seja ver além. Seja compartilhar o BEM. ❤Até logo.

@ra.fisa