Por Rosangela Garcia

Falar no bem diante de tantos desafios de nossa existência, pode parecer ideologia ou utopia, já que a cada dia, o materialismo nos leva a cultuar muito mais o que temos e menos o que somos como seres de sentimentos e emoções. No entanto, finalizarmos o dia com a cabeça sobre o travesseiro e termos um encontro com nosso eu verdadeiro é inevitável. Nesta hora podemos estar em paz e gozar de uma boa noite de sono ou estarmos atormentados por sentimentos antagônicos, angústias e inquietações que o dinheiro, carro do ano, joias não conseguem apaziguar. Trazendo-nos um sentimento de um grande vazio.
Fazer o bem alimenta nossa alma, oxigena nosso coração, pois temos dentro de nós uma centelha Divina que nos permite cocriar com Deus e assim vivermos a plenitude da prosperidade e abundância divinas; fazendo ao outro o que gostaríamos que nos fosse feito. Mas, de que prosperidade e abundância estou falando? Dessa grande energia transformadora e renovadora do amor: que cuida, zela, que quer o melhor para si e para todos e faz disso um propósito de vida, de uma vida em plenitude. De colocar em prática o “Amar ao próximo como a si mesmo”, de forma verdadeira, buscando a paz interior e não os aplausos do mundo. Entender que a prática do bem é um exercício realizado e deve ser realizado com disciplina, como nossa única possibilidade de buscarmos a elevação espiritual e de garantirmos noites mais serenas e equilibradas.
Não acredito em forma mais eficaz de melhorar o mundo, que não seja iniciar essa mudança por si.
E cada ação no bem nos permite sentirmos paz, equilíbrio e harmonia conosco e com tudo ao nosso redor: natureza, animais, pessoas, sociedade. Acredito que só assim conseguiremos exercer nosso papel de co-criadores assumindo nossa responsabilidade em tornar este lugar abençoado, chamado Planeta Terra, melhor para todos. No entanto, para que isso seja possível, precisamos vencer a crença limitante de que fazer o bem é para as grandes almas que realizam as grandes obras. Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Chico Xavier, Gandhi, Nelson Mandela e tantos outros exemplos são referências de que é possível alcançar esta plenitude e um dia, com as bênçãos de Deus e muito trabalho, chegaremos lá. Porém não existe o bem ideal, este bem ideal é o que você consegue fazer, realizar. Lembremos das palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5, 13-14). Estes ícones do bem, são aquela luz dos estádios, que ofuscam e atingem multidões. Jesus é a luz do sol que condensa a humanidade e nos traz esperança a cada nascer e paz a cada pôr do sol. E nós podemos ser luz; a que nos propusermos ser. Vamos iniciar sendo a luz do palito de fósforo, que rapidamente se apaga, depois podemos nos tornar a luz da vela, mas que em poucas horas também se apaga, um dia, quem sabe, a luz de uma lâmpada com duração maior, e assim, vamos fazendo o bem e iluminando com a luz que nos cabe a escuridão de nosso planeta e nossas próprias sombras. Não importa o tamanho e intensidade de sua luz, todos a temos. Coloque-a a serviço do bem e ajude a diminuir o sofrimento e dor do mundo!
Eu me fiz este propósito desde muito jovem, sempre quis ajudar, sempre olhando ao meu entorno, me comovendo com a dor alheia, observando o que existia por trás de um olhar, de uma palavra. Lembro que ia para igreja de Nazaré em Belém e ficava lá por horas, pensando na vida, nos problemas de minha casa, alguns desajustes na relação de meus pais e sofria muito. Então olhava as pessoas chegando, pagando promessas, outros em choro silencioso, outros com o ollhar de súplica, rogando amparo, e saía de lá achando meus problemas tão pequenos. Com o tempo, fui lapidando meu desejo de ajudar, de ser útil, sempre pedindo permissão a Deus diante de minha insignificância. Aos 18 anos conheci o CVV- Centro de Valorização da Vida, que atua na Prevenção do Suicídio, isso no auge da Campanha do Betinho de combate a fome. Aos 25 anos defendi meu TCC, levantando os dados de que morriam muito mais pessoas de solidão do que de fome, e buscava com meu projeto mais apoio a entidades como o CVV. Essa situação das dores da alma sempre me tocaram profundamente, pois são dores que não encontram medicação rápida e imediata nas farmácias. Que falam do íntimo de nosso ser e que muitas vezes causam danos muito difíceis de curar, pois dependem de algo que só o ser pode fazer por ele mesmo: aceitar quem ele é e se perdoar. As pessoas precisam ter coragem de olhar pra si e querer realizar mudanças. Caso contrário, irão afundar no lamaçal da depressão, síndromes do pânico, podendo chegar até ao suicídio.
Então, após anos longe do CVV, mas exercendo a vida plena em outras vertentes da vida adulta, há três anos me vi inquieta novamente, com o grande número de suicídio e depressão ao meu entorno. Situações no trabalho, no grupo espírita que frequento, na vizinhança, na família. E pensei que precisava fazer algo. Minha crença limitante do grande bem dizia que tinha que ser algo grandioso, criar um grupo de apoio, atender essas pessoas, até montar um posto do CVV em Castanhal. Percebi que muitas portas se fechavam, e muitos que pensava que ouviriam meu apelo e se juntariam a mim, debandaram, pois é uma energia muito pesada e tensa. As pessoas já têm seus problemas íntimos e não querem ainda ter que ouvir e/ou auxiliar nos problemas dos outros. Foi difícil compreender e aceitar isso. Mas as vítimas se multiplicavam, muitos jovens envolvidos nesta situação. Eu olhava meus filhos e a necessidade de fazer algo me atormentava. Então percebi que não existe a grande obra e a pequena obra, apenas a obra. E comecei a fazer os acolhimentos, doando mais tempo a esta tarefa de acolher, abrindo mão do lazer, de estar em casa mais cedo com os filhotes, dos finais de semana, das tarefas na casa espírita e fui ao encontro da dor. Me reconectei com a turma do CVV através do CVV Comunidade, fiz duas formações e iniciei um trabalho singelo do despertar para a Valorização da Vida com os que estavam por perto, ao alcance: vizinhos, companheiros de trabaho, amigos, amigos dos amigos, estranhos que de alguma forma chegavam a mim. Criamos o grupo de apoio CRC, dava duas pessoas, três, quatro, tudo acontecia nesse dia, e eu dizia: hoje encerro o grupo! Mas, aí os milagres vinham acontecendo, pessoas choravam, dividiam suas dores e saíam de lá melhores do que chegavam, e eu ia levando o trabalho. E tenho seguido como o soldado mais rés de Jesus, pedindo a ele a oportunidade de servir em sua Seara Divina, dirimindo a dor daqueles que ele encaminha ao meu encontro. Ano passado consegui realizar algumas palestras em escolas e centros comunitários pelo Setembro Amarelo, já realizei duas outras no CAPS, na Casa Espírita e venho semeando a esperança e confiança, tentando acender meu fósforo por onde a Divindade me permite: Ser luz, instrumento de paz, amor e cura. Como sou publicitária, estou acostumada aos grandes holofotes, e Jesus tem me mostrado que o pequeno é grande, quando feito com dedicação e amor, e com isso, venho trabalhando minha vaidade.
Amor é o meu combustível, o meu incentivo, minha força, meu alicerce nos momentos de vacilações, de cobrança dos filhos, família e amigos, pois o tempo e a consciência são de cada um, para mim chegou. É hoje e não amanhã. Se tiver num lugar e alguém se aproximar, iniciar uma conversa vou semeando este amor com acolhimento, procurando não julgar, tentando me colocar no lugar do outro e buscando acolher como se fosse meu filho, minha irmã ou minha mãe ou eu mesma ali naquela pessoa. Tento dar o meu melhor, sabendo que tenho muitas falhas e que estes acolhimentos nutrem minha alma e me tornam melhor para mim mesma: uma mãe mais compreensiva, uma cidadã mais consciente, uma pessoa mais leve, menos estressada, e olha que sou muito. Iluminando o mundo que quero para mim, para meus filhos e para todos. Então estou 24h de prontidão e sempre dá tudo muito certo, pois o que é impossível para mim, para você, não é para Deus. Então, quando não tenho nada a dizer, abraço com muito amor, tentando transmitir minhas melhores energias e pedindo misericórdia a Deus, que naquele abraço ele me permita transmitir um pouquinho de sua energia transformadora, libertadora e curadora. Pois tudo é dele, tenho consciencia que sou apenas um instrumento, que às vezes, está falho, desafinado, mas com um desejo sincero e verdadeiro de dar o seu melhor.