Por Claudeci Damasceno

As recordações vêm, às vezes, sem que as procuremos. Elas residirão pra sempre em nossas memórias. Enquanto a mente vibrar com o gingar do tempo, enquanto a lucidez fizer-se presente em nós, estarão as recordações, até mesmo daquilo que não fora bom, que não valeu a pena vive-lo… ou valeu?… Valeu, do contrário, como se haveria de contar sobre a vida? Ela é completa de momentos e fases, situações mutáveis, e que nem sempre só acontece o que é bom…
Mas, as boas coisas que aqui vivemos jamais ir-se-ão embora, nem ficarão às escuras.
Elas permanecerão em nós, povoando nossos cérebros, são lembranças, e estas nós fazemos questão de vivê-las, no pensamento ou em meras conversas, porque tais momentos, para nós são doces, são gravações permeadas de carinho e leveza, e sempre nos vêm, como música antiga que, ao ouvirmos, poderosamente, transporta-nos a um passado mais que distante.
Recordar minha mãe é sublime! Revê-la em imagens guardadas em mim é ter a certeza de que a vida me foi generosa demais. Com ela, aprendi tudo que sei, tudo o que sou.
Há dias em que penso que ela ainda está entre nós, que vou vê-la chegar aqui e entrar, chego até a ouvir sua voz me chamando. Acho que ela está… O fato é que mesmo vivendo todo o sofrimento, mesmo sofrendo junto a ela, as boas recordações prevalecem.
Os melhores momentos em nossas vidas são predominantes; eles permanecerão e, certamente me trarão de volta a magia vivida há tempos, para que eu possa viver tudo outra vez!
Não dá pra cair no esquecimento, até porque parece que foi há tão pouco tempo!
Todas as tardes…Todas, às 15h, estávamos em volta dela, lá no pátio, morno pelos raios de sol ou mesmo frio nas tardes de inverno, mas não havia como não estar com ela! Após a sesta, adentrávamos na casa grande, minha saudosa irmã, Assunção, Vera, cunhada e eu, em busca da minha mãe.
Geralmente àquelas horas, ela já se encontrava lá em sua cadeira, esperando por nós, que tudo fazíamos para espantar a tristeza naquele olhar, aquele silêncio que, em nada lhe fora peculiar. De vez em quando ela nos ouvia (malmente) e dava-nos um leve sorriso. Aquela sonora gargalhada já se fora, há tempos! Estava deficiente auditiva, o que lhe deu a maldita labirintite, e assim, já quase não falava.
Era nosso maior empenho fazer a mamãe sorrir. Ela ansiava por nossas presenças ali. Sentia-se viva em nossas companhias. Ainda era bom! Às vezes, aquele silêncio dela nos deixava tristes, incomodadas. Lembro-me do que nos disse uma outra irmã sobre isso, isso de minha mãe ficar com o olhar perdido, geralmente, direcionado ao céu, o que se fazia perfeitamente pela porta lateral da sala. E ela, Dineia, dizia-se penalizada, gostaria de entender o que se passava naquela cabeça, ocorria sempre nos finais de tarde, o olhar perdia-se por entre as nuvens, pensamentos tão distantes, tão distante a realidade!
Eu costumava ficar com ela até às 21 horas. Saía de perto dela, porque tinha que vir pra minha casa. Precisava dormir, acordar cedo para ir ao trabalho no outro dia.
Aí… falando em “ir ao trabalho”, remeto-me à mais linda lembrança, vem-me a imagem mais pura, a imagem mais sublime que alguém pode guardar no pensamento, no olhar, na alma… é… no coração mesmo, porque aquelas cenas jamais de mim serão apagadas!
Mamãe já quase não se alimentava. Tinha sempre a sensação de que o estômago estava cheio, e estava mesmo, tomado pela ponta do coração que crescera demais. Dessa forma, ela não sentia fome e o pouco que comia, fazia-a passar mal. Então, com isso ela ficava fraquinha e, até para tomar os comprimidos, (que eram muitos), ela tomava com água apenas. Dizia que estava “cheia”, o organismo não aceitava nada, nem líquido nem sólido. Foi assim que tive a ideia de, todos os dias, antes de sair para o trabalho, preparar um copo de mingau e levar pra ela.
No início, ela não queria, mas eu forcei a barra, e ela, por fim, acostumou-se. Deu certo. E durante seus últimos dias, aquele era o seu desjejum.
Eu entrava pela porta dos fundos (o nosso beco), como todos batizaram e seguia pela cozinha, pela grande casa; meus olhos procuravam-na , mas eu sabia que ela já estava tomando o seu solzinho das 7 da manhã, lá na frente. Meu Deus… como isso ainda é tão próximo!
Ao ver-me chegar, ela sorria e dava um estalinho na garganta que só ela sabia dar, era uma marca dela, balançava a cabeça e pegava copo. Sentava-se e tomava o líquido quentinho. Dizia sentir-se bem.
E eu, eu adorava vê-la, alimentando-se de algo que eu fazia pra ela, (dizem que sou desastrosa na cozinha), dizem, né?… Então, para mim, aquilo era o máximo!
Mas, a cena inesquecível mesmo (e que acho que me protege), é aquela que eu via, quando abria o portão e partia, olhando para ela, que se punha em pé e estendia a mão direita na vertical, pedindo a Deus que me abençoasse, e eu a ouvia dizer:
– Vai com Deus!
Eu me sentia segura, protegida, respondia com um aceno, enquanto pronunciava “amém”…
Todas as manhãs, ao sair de casa, eu revejo o seu olhar de santa, o seu leve e doce sorriso e aquela mão pequena erguida aos céus, em minha proteção.
As vezes, em pensamentos, eu respondo:
“Amém, mamãe!”

Trecho retirado
do livro ‘’Nossa Casa’’
da autora Claudeci Damasceno,
nossa homenagem ao mês
das mãe.
Equipe Janela Vip.