Por Alana Motta

O homem, no decorrer da sua história, sempre teve a necessidade de criar um local para o seu repouso e descanso com a função de proteger, dar conforto e segurança ao indivíduo e à família.
“A casa é o fator primordial para estabelecer padrões e referenciais de espaço, de materialidade, da relação do corpo com o mundo, constituindo-se como um laboratório de construção da subjetividade do indivíduo. ” (Juhani Ballasmaa, 2011).
Nesse aspecto, a casa se converte num ambiente gerador de experiências e correlações entre o indivíduo e o conjunto, pela gama de valores – morais, sociais e culturais. É importante refletirmos sobre as transformações que o espaço doméstico tem sofrido em meio aos processos de mutação que temos vivido nos últimos anos, a considerar também as variações dos usos e das funções dos ambientes da casa, a invenção de hábitos, a modificação dos referenciais de beleza e a concretização de modos de vida bastante indicativos sobre nossa contemporaneidade. As situações como enfrentar filas, a falta de estacionamentos, o trânsito e a dificuldade de ir e vir, a preocupação com a “violência urbana”, jornadas de trabalho flexíveis, comodidades tecnológicas e serviços de entrega em domicílio – flores, supermercado, pizzaria, farmácia, são alguns dos fatores que acentuam o ato e o valor do morar e permanecer em casa. Porém, o desdobramento desta valorização da moradia é uma crescente oposição entre a casa e a cidade, confrontando o mundo individual à esfera da sociabilidade coletiva, tirando da cidade um local de convivência, da troca e diversidade, do exercício saudável de interação social.
O condomínio fechado tornou-se o paradigma do processo de cisão social. Porém há um processo de exagerar o convívio restrito aos grupos sociais que frequentam uma casa, em que a convivência se transforma num evento inserido num processo de espetacularização da vida privada, mostrando novos hábitos de consumo e sociabilidade que se consolidam diante da avalanche tecnológica, do desenvolvimento de equipamentos e das necessidades simbólicas da vida de cada morador, casal ou família. Antes uma casa unifamiliar tinha apenas uma sala de TV, cozinha, quartos, banheiro social e uma suíte, hoje ampliaram possibilidades do programa residencial e transformaram a nomenclatura dos ambientes, ainda que muitas funções sejam duradouras e peculiares ao morar. A sala de visitas foi substituída pelo living e hoje é uma dentre outras salas, enquanto que a sala de TV se fortaleceu como home theater. Bar, jardim de inverno, sauna, banheira de hidromassagem, foram modificados, substituídos ou convivem com um rol de novos itens no programa, tais como a cozinha/espaço gourmet/adega e até a simples churrasqueira foi atualizada com a incorporação do forno de pizza. O escritório passou a ser home office e tornou-se comum ter banheiro integrado ao dormitório, e a suíte, antes restrita somente ao casal anfitrião, tornou-se privilégio de todos!
Diante de necessidades agora efetivas, constata-se a reprodução de modismos e novos símbolos de status social que fica evidente numa verificação dos equipamentos oferecidos nas propagandas que valorizam esse novo jeito de morar, como por exemplo a automatização dos espaços e eletrodomésticos cada dia mais inteligentes e presentes no nosso cotidiano.
Apesar de possuir acomodações espaciais complexas e cada vez mais elaboradas, a casa não deve perder o ar de informalidade, que em parte deve ser obtida pelas escolhas dos materiais e seu tratamento. Devemos nos indagar se estamos diante de uma mera reposição temporária de modelo, estilo e valores estéticos sobre casa ou não.
Para tanto, o arquiteto deve ter em seu horizonte o domínio pleno sobre sua ação e importância, sobre as mudanças provenientes da relação do homem, casa e cidade, como condição inevitável para atuar com autonomia, junto a todas as forças ativas e transformadoras que constroem nossa vida contemporânea.