Caetano Veloso é um ícone da música brasileira, foi precursor do Tropicalismo em 1967, fez música de protesto, participou de festivais, combateu a ditadura, foi exilado, tocou rock, lançou disco em espanhol e em inglês, fez disco colaborativo com internautas, lançou-se em canções apaixonadas e continua sensível a tudo o que ocorre no mundo. Suas composições revelam uma maneira única de poetizar a vida e instigam nossas mentes a tentar compreender rimas, tantas vezes, ao primeiro impacto, sem sentido. Sua música e maneira de se expressar poderiam até se tornar um verbo novo: Caetanizar. E parece que foi isso mesmo que ele fez com os filhos Moreno, Zeca e Tom que dividem palco com o pai na turnê do show “Ofertório”. A apresentação intimista convida o público a sentar como se estivesse numa roda de violão, em casa.
Claro que a revista janela VIP foi conferir esse momento único e tem entrevista exclusiva aqui para você.

RJV – Como surgiu a ideia de fazer um show com os seus filhos?
Caetano – Surgiu na minha cabeça, eu sozinho, e ficou esperando longo tempo a oportunidade de se externar em proposta a eles e à produção. Felizmente rolou. É o que mais me dá alegria nesse momento de minha vida.
RJV – No show, os filhos tocam e cantam junto com você. Eles também compõem. Como explicar o talento musical em toda a família?
Caetano – Musicalidade é frequentemente hereditária. Veja os filhos de Djavan, os de Gil, os de Caymmi – para só falar de uns poucos. Mas nem é esse o essencial de nosso caso. Eu não tenho grande capacidade musical. O que meus filhos e eu temos a dizer de peculiar é algo sobre o clima de nossa família, de nosso ambiente mental, que pode expressar-se em música de maneira aceitável e até brilhante, mas que não é exemplo de acuidade musical. Nossas conversas, nosso jeito de conviver, de olhar as coisas da vida, jeito que vem da tradição do Recôncavo Baiano, de onde venho, do espírito da minha família de origem, em combinação com as mulheres de Salvador e do Rio, com quem procriei – e a vivência cultural dessas duas cidades – tudo isso resultou num grupo de pessoas intimamente próximas que apresentam respostas de gerações diferentes aos temas de encanto e desgosto que o mundo nos apresenta.
RJV – Qual tem sido a reação do público a esse show?
Caetano – Para minha profunda felicidade, o público tem reagido sempre de modo a enriquecer o significado do evento. Tive grandes esperanças e grandes medos ao começar a pôr em prática o sonho que tinha tido. Felizmente tudo o que era medo se desfez na própria noite de estreia.
RJV – Esse projeto em família vai resultar em um novo disco?
Caetano – Gravamos tudo ao vivo em São Paulo. Já saíram em formato digital três singles: “Todo homem”, “Um canto de afoxé para o bloco do Ilê” e “O seu amor”. “Todo homem” teve um milhão e meio de visualizações só no YouTube. E estamos lançando em breve o DVD do show inteiro.
RJV – Qual a sua visão de novidade na área musical que você pode vir a caminhar junto?
Caetano – Eu me aproximo das novidades com carinho, mas com cuidado de não roubar a energia própria do gênero. “Haiti” é um rap diferente, sem roubar a brisa do rap. “Língua” foi uma homenagem ao rap (e lançou a expressão “samba-rap” muitos anos antes de Marcelo D2 surgir). Meus rocks de Velô ou de Uns ou da trilogia com a bandaCê são conversas com o rock, não uma invasão da praia de Herbert, Raul ou Lobão. No nosso show tem um funk, chamado “Alexandrino”, que fiz só pra Tom dançar passinho, que eu gosto de ver. Antes, tinha feito, pra Gal, no Recanto, o “Miami Maculelê”, um comentário amoroso sobre o funk carioca. Mas é tudo Caetano, “maluquice de seu Caetano”, como dizia minha mãe.
RJV – Nas vindas ao Pará você teve a oportunidade de conhecer lugares e cultura local, como a gastronomia? Conta a experiência pra gente!
Caetano – Desde os anos 1960 que me apaixonei por Belém, por seu urbanismo, pela sua cozinha. Eu adorava comer casquinha de mussuã, hoje proibida em defesa da preservação dessas tartaruguinhas lindas. Adoro casquinha de caranguejo. Açaí é uma das coisas mais deliciosas que conheço. Pato no tucupi. Não gosto de tacacá. Embora ache legal a sensação de temor na boca que o jambu dá.