Por Marcelo Gomes

Fico muito feliz por essa oportunidade de poder expressar um pouco acerca desse assunto, tão especial, que é a prática do bem.
Compreendo que fazer o bem, primeiramente, não é o fato apenas de dar algo que tenho, mas dar o que sou, até mesmo porque muitas vezes podemos dar algo a alguém, sem ao menos compreender a realidade da mesma, então entendo que fazer o bem, acima de tudo, é o fato de podermos sentir a realidade do outro, de ENTRAR NO MUNDO DO OUTRO. Tudo isso está ligado ao amor, uma das expressões mais concretas do amor é ato de dar, a palavra amor carrega em sua raiz o significado (DAR, DOAR-SE) foi o que Deus fez, amou o mundo e provou dando seu filho pelo mundo. Podemos até dar algo a outro sem amar, mas nunca vamos amar sem dar.
Como coordenador do Missão Resgate, lidando no dia a dia das pessoas, já há doze anos, muitas vezes pessoas que são vítimas de traumas sociais e principalmente em fuga de problemas emocionais, familiares e outros, entendi que o que elas mais precisam nem sempre é comida, bebida, uma vestimenta ou até mesmo um teto.
Mesmo porque muitas tinham esses recursos em seu seio familiar, e as mesmas migraram vítimas de uma fuga interior. Mas percebo uma necessidade muito maior de afeto, e de serem compreendidas. Percebo também o quanto em nossos dias se vive uma geração de pessoas órfãos de pais vivos, e que o frio da orfandade está instalado em nosso redor, seja num paciente em um hospital que precisa de uma visita, em um encarcerado prisional, uma criança em um abrigo, uma pessoa em situação de rua, e segue a lista.
Diante dessa realidade, compreendo que a orfandade está ligada não à ausência de pessoas, mas, ausência de afeto, ou seja, em alguns casos, a pessoa está em um ambiente cercado de movimento e atividades, mas ninguém a nota.
Acredito que fazer o bem é também eu poder sair do meu mundo, abrir mão, às vezes, de algumas prioridades e colocar o outro como primeiro. Tudo isso está ligado ao amor e ao Grande Mandamento que diz: ‘‘Ama o teu próximo como a ti mesmo.’’
Quando cuidamos de pessoas, não mudamos a vida delas, são elas que mudam as nossas, porque nos trazem alegria e sentido. Gosto das palavras de Jesus, quando Ele diz; ‘‘Façais aos homens tudo que gostaria que os homens lhe fizessem.’’ (Mt-712) a compreensão dessas palavras acrescentou muito na minha vida e alterou de forma muito positiva em minhas prioridades.
Quero finalizar, fazendo uma correção de uma expressão muito usual em nossos dias. Alguns dizem ‘‘moradores de rua,’’ na verdade, a rua não é lugar pra ninguém morar, o que entendemos é que são pessoas em ‘’situação de rua’’. Dizer também que vale a pena acreditar nas pessoas, investir tempo nelas, até mesmo porque alguém acreditou em nós lá atrás, investiu em nós, não existe pessoa irrecuperável; às vezes, nossos métodos são inadequados e como diz a frase que usamos aqui na nossa missão:
‘‘Quando ninguém mais acredita a vida recomeça’’.