Por Klener Vaccari

Quando recebi o convite de escrever um pouco sobre a importância de compartilhar o bem, fiquei meio intrigado e preocupado sobre como iria fazer para transmitir a minha concepção sobre o assunto.
Aprendi há cerca de 30 anos, com um grande e sábio amigo, Monsenhor Aderson Neder, que “o segredo da felicidade é fazer os outros felizes”. Essa frase parecia um mantra e acabou me acompanhando, da adolescência até a maturidade. Mas seria somente isso? Não seria muito fácil encontrar a tal felicidade? E o que fazer com tantas teorias de felicidade e bem comum?
Fiquei durante muito tempo pensando no que aquele velhinho queria dizer com isso. Com o passar do tempo, percebi então que era necessário inverter a ordem das coisas, ao invés de buscar satisfazer as minhas necessidades para depois satisfazer as necessidade dos outros, eu precisava primeiro olhar para o meu próximo para só depois pensar em mim. Acreditem, quando isso aconteceu, todo o bem que eu achava que estava fazendo pelos outros, retornava de maneira muito mais forte.
Na adolescência, foi-me apresentado, juntamente com meu irmão, por esse mesmo amigo, o Movimento Igreja Jovem, ou simplesmente I.J. para os íntimos. Além de toda a espiritualidade, formação e amizade, o I.J me proporcionou principalmente a possibilidade de exercitar o bem e de colocar em prática aquele “segredo da felicidade”. Quanto mais eu me doava, mais eu ganhava, quanto mais eu me dedicava, mais graças recebia. Quando percebi, toda a minha família e todos os meus amigos estavam fazendo parte do projeto.
Lembram quando disse lá em cima que o bem sempre retornava de maneira cada vez mais forte? Pois bem, foi através de um planejamento de uma ação social no I.J. que conheci a minha esposa. Estávamos em uma reunião planejando fazer o bem e recebemos um bem muito maior, o amor. E lá se vão mais de 20 anos compartilhando do mesmo ideal de vida, tentando fazer outras pessoas felizes e recebendo mais felicidades ainda, diga-se Lucca e Enzo, que também estão nessa caminhada conosco.
Durante algumas décadas de caminhada, tive e ainda tenho a oportunidade de trabalhar com crianças, adolescentes, jovens e mais recentemente com casais. Quanto conhecimento, quanta vivência, quanta história bonita de dedicação e superação de dificuldades! Quanto compartilhamento de bondade e de felicidade! Se formos parar para pensar, quem ganhou mais com tudo isso fui eu mesmo. É uma constante retroalimentação.
Nos dias de hoje, em que há uma séria crise de valores, vivemos a cultura do casual e descartável. O ato de fazer o bem (sem olhar a quem) ganhou contornos digitais. A preocupação sobre o que os outros vão achar da minha atitude acaba sobrepondo o real sentido de compartilhar o bem. As demonstrações públicas de generosidade estão por toda parte, independente de classe social. Na verdade, se olharmos o que se passa nas mídias sociais, veremos como essa necessidade de reconhecimento está disseminada. As pessoas fazem constantemente a promoção das suas realizações, dos seus relacionamentos e de suas boas ações.
Estamos passando por momentos de instabilidade, um momento dicotômico em nossa sociedade. O diálogo deu lugar para a intolerância. As nossas opiniões pessoais buscam sempre se sobrepor à opinião alheia. Nossa disposição para aceitar, reconhecer e respeitar pessoas com pontos de vistas diferentes está diminuindo. Então, o que fazer? Faça os outros felizes!
Faça os outros felizes com vontade, como se ninguém estivesse filmando, arranque sorrisos das pessoas, faça com que elas se sintam importantes, únicas. Muitas vezes, acabamos associando o ato de fazer e compartilhar o bem a ações de filantropia, a doar alguma coisa material a alguém. O bem vai muito, mas muito além da doação de uma roupa, (geralmente as que não queremos mais), uma cesta básica ou um brinquedo.
Se pesquisarmos um pouquinho, veremos que as definições para as palavras ‘’bem’’ e ‘’felicidade’’ são parecidas. Ambas possuem o mesmo objetivo de satisfação e alegria.
Então vamos a um ato concreto, até porque, como dizia São Tiago: “a fé sem obras é morta”, são as nossas ações que validam as nossas vidas. Vamos começar a exercitar a bondade, nossa preocupação com os outros. Em um mundo tão rude e indiferente, vamos ser mais gentis, mais solícitos, mais ouvintes, enfim, mais humanos! Não sei se minha percepção de bem é muito simplória ou se as pessoas tentam colocar um grau a mais de complexidade para descrever a bondade. Acredito que o bem é um conjunto de pequenas coisas, pequenos detalhes, pequenos gestos, que quando juntas; engrandecem não só quem recebe, mas principalmente quem se doa.